terça-feira, 30 de agosto de 2011

Os ciganos e o Nazismo

O extermínio dos ciganos pelos nazistas é um drama pouco reconhecido e a consciência europeia não pode esquecer de tal dor, afirmou o Papa Bento XVI, ao receber neste sábado, no Vaticano, 2.000 ciganos de toda a Europa.


"A consciência europeia não pode esquecer tal dor. Que nunca mais seu povo sofra vexames, rejeição e desprezo!", exclamou o Papa no transcurso da histórica visita.


"Milhares de mulheres, homens e crianças foram exterminados de maneira bárbara nos campos de concentração", recordou Bento XVI ao receber o grupo de ciganos no Salão Paulo VI do Vaticano.


"Seus filhos têm direito a uma vida melhor", afirmou o Papa, que incentivou os ciganos a colaborar com a Europa.



"Proporcionem, vocês também, uma colaobração efeitva e legal, a fim de que suas famílias se insiram dignamente no tecido civil europeu", afirmou o Papa.


Os ciganos foram a Roma para celebrar o 150º aniversário do nascimento do cigano de origem espanhol Zeffirino Giménez Malla, beatificado em 1997 pelo Papa João Paulo II.


Porajmos, significando literalmente "devorar", é um termo cunhado pelo povo cigano Rom para descrever a tentativa do regime Nazi da Alemanha de exterminar este grupo étnico-cultural minoritário da Europa central. O fenómeno tem sido pouco estudado, em relação ao Holocausto judeu, ou Shoah. Talvez porque as comunidades Rom da Europa Oriental tenham sido menos bem estruturadas e organizadas do que outras; assim como as de gays e de grupos relgiosos como o das Testemunhas de Jeová que se subtrairam das intenções do regime.


A campanha de genocídio de Hitler contra os povos ciganos da Europa era vista por muitos como uma aplicação particularmente bizarra da ciência racial nazi.


Antropólogos alemães foram forçados a enfrentar o facto de os ciganos serem descendentes dos invasores arianos, que regressaram à Europa. Ironicamente, isto torna-os não menos arianos que os próprios alemães, pelo menos na prática, senão em teoria. Este dilema foi solucionado pelo professor Hans Gunther, um conhecido cientista racial, que escreveu:


«Os ciganos retiveram na verdade alguns elementos da sua origem nórdica, mas eles descendem das classes mais baixas da população dessa região. No decurso da sua migração, eles absorveram o sangue dos povos circundantes, tornando-se assim uma mistura racial oriental, asiática-ocidental com uma adição de ascendência indiana, centro-asiática e europeia.»
Como resultado, apesar de medidas discriminatórias, alguns grupos de ciganos de etnia Roma, incluindo as tribos alemãs dos Sinti e Lalleri, foram dispensados da deportação e morte. Os ciganos restantes sofreram muito como os judeus (em alguns momentos foram ainda mais degradados). No Leste europeu, os ciganos foram deportados para os guetos judeus, abatidos pela SS Einsatzgruppen nas suas vilas, e deportados e gaseados em Auschwitz e Treblinka.


O nazismo no século XX, retomou toda série de preconceitos, discriminações e perseguições dos séculos anteriores, tentando assim uma campanha de extermínio como nunca antes empreendida.


Desde 1933, a imprensa nazista começou a acentuar que os ciganos e judeus eram raça estrangeira, inferior, e que teriam "contaminado" a Europa como um corpo estranho.


As autoridades nazistas com o apoio da generalizada antipatia contra os ciganos, puderam facilmente percorrer a via do extermínio desse povo, associando sempre nos discursos e escritos
o binômio judeus e ciganos.


O primeiro grito de alarme oficial para o mundo cigano se fez ouvir a 17 de outubro de 1939, quando Heydrich, a mando de Hitler proibiu-os de abandonar seus acampamentos. Nos três dias seguintes, após recenseamento, foram transferidos para campos de concentração, esperando serem enviados à Polônia.


Mas já em 1936 tinha começado para os ciganos a via sacra dos campos de concentração, ainda que com escopos diversos. Dachau foi um de seus primeiros campos de concentração. Eram internados com a qualificação de "elementos associais". Sofriam então medidas disciplinares duríssimas.


Nesse ínterim a propaganda contra os ciganos se tornava sempre mais áspera. Em novembro de 1941 lançou-se o slogan: "Depois dos judeus, os ciganos!"


A 24 de dezembro de 1941, o governador civil Lohse envia uma ordem reservada a todas as SS, afirmando que os ciganos são duplamente perigosos, tanto pelas doenças de que são portadores como pela sua deficiência, prejudicando assim a causa nazista. Ao termo do comunicado, a decisão: "Decidi portanto que sejam tratados como os judeus" (Carta de 7 de julho de 1942, no arquivo Yivo).


A 25 de agosto de 1942, quando aumentaram as pressões sobre os ciganos, em um boletim do Comando de Polícia se lia, entre outras coisas que se dizia dos ciganos: "é pois indispensável exterminar esse bando integralmente, sem hesitar".
Soldados nazistas prendendo cigana com uma criança no colo.


Essas medidas disciplinares, encontradas em boletins, cartas e telegramas, apenas codificam uma praxe já iniciada: com efeito, desde 1941 tinham começado as deportações em massa dos ciganos.


Chegaram a Lodz, em outubro de 1941, cinco mil ciganos, entre os quais mais de 2.600 crianças. Foram todos internados por grupos de famílias. Os testemunhos nos dizem que as janelas das barracas estavam quebradas, enquanto o inverno era extremamente duro. No campo não havia medidas higiênicas nem assistência médica.


Duas semanas depois da chegada dos nômades, irrompeu uma epidemia de tifo, e em dois meses morreram mais de 6oo adultos e crianças. Os sobreviventes entre março e abril de 1942, foram deportados para Chelmo, e ali assassinados nas câmaras de gás.


Desde então até 1946 se multiplicam os testemunhos: massacres coletivos, mortes individuais, tortura de todo o tipo, experimentos químicos e médicos dos mais cruéis. E todas essas crueldades ocorriam nos diversos campos de concentração. Eis os nomes de alguns desses campos: Auschwitz, Birkenau, Mauthausen, Rabensbruch, Buchenwald, Chelmno, Lodz, Dachau, Lackenbach, Sachsenhausen.


Vamos agora examinar um pouco mais de perto o mais tristemente famoso desses campos: Auschwitz. A esse campo chegam ciganos de toda a parte, até aqueles para os quais não se podia prever de modo algum o confinamento.


Alguns com efeito estavam em licença da frente militar, muitos tinham no peito condecorações de combate e no corpo feridas de guerra. Havia um só motivo para seu confinamento: serem ciganos ou terem algum sangue cigano.


Chegavam ao campo homens, mulheres e crianças. Particularmente impressionante o depoimento sobre a retirada de crianças de Buchenwald, para serem levadas para Auschwitz. Eram crianças ciganas da Boêmia, dos Carpatos, da Croácia, do Nordeste da França, da Polônia meridional e da Rutênia.


Bárbara Richter, menina cigana, assim depõe: "Até os prisioneiros mais afeitos a esses horrores sentiram enorme tristeza quando perceberam que os SS iam tirar um por um os pequenos judeus e ciganos, reunindo-os em um só rebanho. Os meninos choravam e gritavam, tentavam freneticamente voltar para os braços dos pais ou dos protetores que tinham encontrado entre os prisioneiros, mas envolvidos por um círculo de fuzis e metralhadoras, foram levados para fora do campo e enviado para Auschwitz, onde morreriam nas câmaras de gás".


No campo de concentração nem todos eram enviados à câmara de gás, muitos iam para os trabalhos forçados. No capo estas eram as condições: "No setor cigano erguiam-se grandes cabanas com uma abertura à frente e outra atrás. Serviam como portas.
Nos compartimentos internos achavam lugar a uma única mesa grande cinco ou seis pessoas. As condições higiênicas eram desastrosas quase não havia instalações sanitárias... Auschwitz


Parecia um estábulo para cavalos, sem janelas... Os prisioneiros se moviam em meio a seus próprios dejetos até os calcanhares".
Respondendo a uma observação, por insuficiência de calorias, um oficial comentou: "Mas no fundo são apenas ciganos!" Quem mais sofria eram as crianças... Como depôs alguém: " As crianças eram pele e ossos. A pele, em consequência, se enchia de feridas infecciosas. Por causa da falta d'água, as crianças chegaram a beber água servida; nas poucas vezes em que os cobertores eram lavados, vinham de volta para a enfermaria ainda molhados."


As crianças sofriam de estomatite cancrenosa... parecia lepra...seus corpinhos iam se desfazendo, bocas espantosas se abriam nas faces, e lá dentro se podia observar a lenta putrefação da carne viva". Só no campo de Aushwitz, os ciganos regularmente matriculados foram 20.933, incluindo 360 crianças nascidas no campo de concentração, e que viveram o bastante para receberem número de matrícula. A estes se devem somar mais de 1.700 ciganos mandados para a câmara de gás, assim que chegaram da Polônia em março de 1943, e que nem tinham recebido ainda o número de matrícula. Durante uma simulação de ataque aéreo noturno, foram todos mandados à câmara de gás, "por suspeita de serem portadores de tifo".


Aos 29 de maio de 1943, 102 ciganos foram arrastados para fora de suas instalações e levados para a câmara de gás.
Esses testemunhos, que poderiam se multiplicar quase no infinito, culminariam no massacre final, narrado por quem assistiu à matança de quatro mil ciganos, no começo de agosto de 1944: "A sirena anunciou um princípio de um rigoroso toque de recolher. Os caminhões chegaram por volta das 20 h. Os ciganos tinham previsto o que estava para acontecer, mas os alemães fizeram
de tudo para confundir as idéias: ao saírem dos acampamentos, os ciganos recebiam uma ração de pão e salame, e muitos
assim acreditaram que se trataria simplesmente de transferência para outro campo".


"Podíamos ouvir, quando os últimos e horríveis instantes, irromperam no acampamento e se lançaram contra mulheres e crianças
e anciãos, alemães armados e auxiliados por cães. De repente o ar foi rasgado pelos gritos de um garoto que em theco suplicava: Eu lhe peço, senhor SS, me deixe viver!" "A única resposta que teve foram os golpes de cassetete. Por fim, foram todos jogados, em montes, no caminhão e levados ao crematório. Houve ainda quem tentasse resistir, invocando a nacionalidade alemã"
(Kraus e Kulka).


Houve cenas de cortar o coração: mulheres e crianças se ajoelharam diante de Mengele e borger, gritando; "Piedade! Tenha piedade de nós! Em vão. Foram abatidos a coronhadas, pisados, arrastados ao caminhão, levados à força. Foi uma noite horrível, alucinante. Na carroceria foram jogados os que também já tinham morrido sob os golpes da clava . Os caminhões chegaram ao bloco dos órgãos por volta de 22h30min e ao isolamento por volta de 23hs. Os SS e quatro prisioneiros levaram para fora os enfermos, mas também 25 mulheres em perfeita saúde, isoladas com os respectivos filhos (Aldesberger, p.112-13).
Por volta de 23hs chegaram outros caminhões diante do hospital, num só caminhão colocaram cerca de 50 a 60 presos
e foi assim que chegaram até a câmara de gás.


Prisioneiros ciganos em Dachau


"Ouvi os gritos até altas horas da madrugada, e compreendi que alguns tentavam opor resistência. Os ciganos protestavam, gritando e lutando até a madrugada... Tentavam vender a vida a um alto preço (Dromonski, no processo por Auscwitz).
Depois, Gober e outros percorreram os quartos um por um tirando dali as crianças que tinham se escondido. Os menores foram arrastados até os pés de Boger, que os agarrava pela perna e os jogava contra a parede...Vi esse gesto se repetindo-se umas cinco, seis e sete vezes(Langhein).


A certa altura aproximou-se de mim um oficial SS e mandou que escrevesse uma carta que tinha por assunto "tratamento especial executado". Ele mesmo arrancou violentamente a carta da máquina, assim que terminei de datilografá-la. Quando se fez dia no acampamento, não havia de pé um só cigano (Testemunho Stenber-Longhein, 1965).


As estimativas mais próximas falam de ao menos meio milhão de ciganos mortos e cerca de 6 milhões de judeus. Sabemos que esses dados são inferiores às cifras reais, pois muitos foram mortos antes mesmo de serem matriculados.


Artigo de Oswaldo Macedo ( Taro Caló), presidente de honra do centro de Estudos ciganos. Médico, foi professor de medicina na Sorbonne, tem formação beneditina e foi indicado para a Academia Internacional de Letras(RJ).


Em seu livro Alemanha e Genocídio, o historiador Joseph Billig distingue três tipos de genocídio: por eliminação da capacidade de procriar, por deportação e por extermínio.


No hospital de Dusseldorf-Lierenfeld foram esterilizadas ciganas casadas com não-ciganos, algumas das quais morreram por estarem grávidas. Em Ravensbruck os médicos da SS esterilizaram 120 meninas ciganas.


Um exemplo do segundo tipo de genocídio foi a deportação de 5 mil ciganos da Alemanha para o gueto de Lodz, na Polônia. As condições de vida eram ali tão desumanas que ninguém sobreviveu.


Mas o método preferido dos nazistas era o extermínio. A decisão de exterminar os ciganos, ao que parece, foi tomada na primavera de 1941, quando se criaram os Einsatzgruppen ou pelotões de execução.


Povo antigo, porém prolífico e cheio de vitalidade, os ciganos tentaram resistir à morte, mas a crueldade e o poderio de seus inimigos prevaleceram à sua coragem. O amor à música serviu-lhes por vezes de consolo no martírio. Famintos e cobertos de piolhos, eles se juntavam diante dos hediondos barracões de Auschwitz para tocar música, encorajando as crianças a dançar. Há testemunhas da coragem dos ciganos que militaram na Resistência polonesa, na região de Nieswiez. Segundo elas, os combatentes ciganos se lançavam sobre o inimigo fortemente armado empunhando apenas uma faca.


São decorridos 40 anos desde o genocídio dos ciganos. Já é tempo de denunciar esse crime abominável. Estas linhas pretendem tão somente evocar terrível injustiça cometida contra os ciganos.


Texto de Myriam Novitch, diretora do Museu dos Combatentes dos Guetos, fundado no Kibutz Lohamel Haghetaot por um grupo de sobreviventes do Gueto de Varsóvia.




As outras vítimas do horror nazista
por Ania Cavalcante


O extermínio de 200 mil a 500 mil ciganos durante o regime de Hitler na Alemanha - assassinados nas câmaras de gás, em fuzilamentos em massa e nos guetos - fez parte da "Solução Final da Questão Cigana", tema ainda pouco conhecido pelo historiografia brasileiro.
Enquanto os termos Holocausto e Shoah se referem ao extermínio de 6 milhões de judeus (2/3 da população judaica da Europa, 1/3 dos judeus do mundo, o grupo com o maior número de vítimas da política nazista), a historiografia européia mais recente cunhou o termo em romani Porrajmos para denominar o extermínio dos ciganos pelos nazistas e seus colaboradores na Alemanha e nos países ocupados. O Porrajmos vitimou aproximadamente metade da população cigana da Europa (500 mil ciganos) e foi resultado de uma política planejada - direcionada sobretudo contra os ciganos nômades - de exclusão socioeconômica, "guetoização", trabalho forçado para firmas alemãs em campos de concentração ("extermínio pelo trabalho"), fuzilamentos pelas Einsatzgruppen (forças-tarefa especiais), experiências pseudocientíficas, eutanásia, fome, doenças e morte por gás Zyklon B nos campos de extermínio. Todo esse processo de extermínio cigano é desconhecido em pesquisas no Brasil e passou a ser objeto de estudos na Europa a partir de 1972 e, em especial, a partir da década de 90.
Não houve uma sistematização de relatos e pesquisas a respeito dos ciganos durante o nazismo antes de 1972, ano em que foi publicado The destiny of Europe's gypsies (O destino dos ciganos europeus), de Donal Kenrick e Grattan Puxon. Apesar desse e de outros estudos, eles ainda são bastante escassos. Um estudo sistemático a respeito dos ciganos durante o Holocausto é tarefa difícil, sobretudo pela falta de fontes escritas do período, praticamente restritas aos documentos nazistas. Procedentes de uma tradição oral, os ciganos não deixaram relatos de testemunhos a respeito do período. Só recentemente o romani se transformou em língua escrita, o que tem auxiliado no estudo do Porrajmos, com recentes publicações de sobreviventes, como é o caso da biografia do cigano alemão Otto Rosenberg, Das Brennglas, publicado em 1998.
Antes do nazismo
Na década de 30, os ciganos estavam em toda a Europa. Muitos deles não viviam mais em caravanas, e tinham uma vida urbana fixa. As estimativas de ciganos na Alemanha quando da ascensão de Hitler ao poder, em 1933, variam de 15 mil (0,03% da população total de 60 milhões) a 30 mil (0,045%). Também os judeus eram uma população minoritária naquela época: 500 mil (0,77% da população).
Mesmo antes do nazismo a discriminação contra os ciganos já existia. No início do século 20, por exemplo, começou a funcionar na Alemanha uma "oficina de informação cigana", cuja função era registrar os ciganos, considerados uma ameaça contra a qual o estado precisava se defender. Em 1905, foram publicados registros com dados genealógicos e fotografia de centenas de ciganos alemães. Já então a "mistura de raças" era declarada um perigo.
Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, foram promulgadas leis que regulamentavam o nomadismo e essa atitude se voltou contra alguns ciganos e está diretamente relacionada com o nacionalismo e a xenofobia.
Durante a República de Weimar (1919-1933), os ciganos sofreram algumas discriminações e prisões feitas pelo estado. Por exemplo, em 1926, a Baviera promulgou uma lei para "combater ciganos, a-sociais e indivíduos sem hábitos de trabalho". Qualquer cigano que não pudesse provar que possuía um emprego fixo corria o risco de ser levado à prisão. No entanto, como afirma a historiadora francesa Henriette Asséo, durante a República de Weimar, "a polícia ainda não procurava sistematicamente por ciganos. Ela só prendia aqueles nos quais esbarrava acidentalmente e isso ocorria com o objetivo claro de obrigá-los a viver de acordo com as normas sociais predominantes".
Ainda antes da ascensão de Hitler ao poder, a agência de informações do Partido Nazista começou a realizar um levantamento a respeito das "raças estrangeiras não-européias" na Alemanha, os judeus e os ciganos, embora ambos fossem cidadãos alemães.
Hitler e a "higiene da raça"
As teorias formuladas pela biologia racial e pela antropologia um século antes nos países de língua alemã seriam desenvolvidas pelos nazistas para justificar as medidas de extermínio que vitimizaram as chamadas "raças inferiores", por causa de suas características antropológicas ou pelo seu estilo de vida. Os ciganos, considerados o modelo dos denominados "a-sociais", deveriam ser separados da comunidade alemã. A partir daí, ainda na época da República de Weimar, as medidas anticiganas passaram a apresentar similaridade com as medidas antijudaicas. Hitler trouxe uma modificação na perspectiva de discriminação dos ciganos, relacionando o fim da desordem social com a propagação da "higiene da raça".
Logo depois da ascensão de Hitler ao poder, em 1933, entraram em vigor leis e decretos que passaram a excluir os ciganos da sociedade alemã, além de leis que dificultavam a sobrevivência - como as que determinavam aumento do aluguel e o pagamento de 15% do salário como imposto. O Serviço de Raça e Povoação da SS, em Berlim, exigiu a esterilização de "ciganos e meio ciganos". O programa de esterilização forçada, adotado pelos nazistas desde o início da década de 30 para eliminar qualquer "inferioridade racial" e preservar a "pureza" da "raça ariana", se voltou contra doentes físicos e mentais alemães, filhos de pais negros e ciganos. De 1933 a 1939, 200 mil jovens alemães deficientes foram esterilizados.
Desde 1934, muitas repartições do Partido Nazista tentaram excluir ciganos de seus empregos, iniciando o processo de exclusão econômica desse grupo. As Leis Raciais de Nuremberg, de 1935, foram a primeira grande medida de exclusão social decretada contra judeus e também contra ciganos. Elas retiravam a cidadania desses grupos, considerados seres de "sangue estrangeiro" ("artfremdes Blut") e que, por isso, deveriam se separar da sociedade ariana. Nas Leis consta: "Às raças estrangeiras pertencem todas as outras raças [que não a ariana] que na Europa são, além dos judeus, somente os ciganos".
Guetos
Desde o início do regime nazista, houve a tentativa de "guetoização" dos ciganos na Alemanha, ou seja, de separá-los da sociedade. A política racista começou a ser reforçada em 1936, ano em que cerca de 600 ciganos foram levados para o "campo de ciganos" de Marzahn, nos arredores de Berlim, antes que os Jogos Olímpicos começassem. Os ciganos estavam proibidos de sair desse campo.
Para Henrich Himmler, chefe das SS e chefe da polícia alemã - arquiteto da "solução final" e um dos principais assessores de Hitler -, havia ciganos "arianos puros", embora acreditasse que a maioria era "inferior", considerando-os seres "indesejáveis, para serem eliminados e mortos". A denominada biologia racial - pseudobiologia - acabou por decidir quem deveria morrer e quem continuaria vivo, assim como determinou uma série de experiência pseudocientíficas, desumanas, buscando a "limpeza" racial, a "purificação racial" de ciganos e também de judeus.
Nesse sentido, o racismo na ciência foi a tônica e os cientistas tiveram papel importante no extermínio. No que tange ao programa de "eutanásia", os ciganos foram as vítimas mais numerosas. A política de apoio às experiências pseudocientíficas e de repressão política racista era conduzida tanto pela Polícia Criminal quanto pelo Instituto de Higiene Racial, fundado em novembro de 1936, sob a direção do médico Robert Ritter.
Como os ciganos são um grupo étnico de provável origem indoariana e, portanto, representam por si "arianos puros", passou-se a definir a categoria de "cigano misturado" ou "meio cigano" ("Zigeunermischling"), à qual 90% dos ciganos foi classificada. Os "meio ciganos" - ou Mischlinge - deveriam ser separados dos "arianos", esterilizados e encarcerados. No mesmo ano da fundação do Instituto de Higiene Racial, os ciganos passaram a ser deportados para campos de concentração na Alemanha, em especial a partir de 1937, quando Himmler decretou a Campanha de Prevenção de Criminosos, ordenando a prisão e deportação de "a-sociais". A partir daí houve vários decretos e ondas de aprisionamento de ciganos para campos na Alemanha nazista, como os de Sachsenhausen, Sachsenburg, Dachau, Mauthausen, Flossenbürg e Buchenwald.
Em outros lugares da Alemanha também foram formados campos coletivos de ciganos, que se mostraram depois locais de junção de ciganos que seriam deportados. Portanto, ao processo de identificação e classificação dos ciganos, seguiu-se o processo de "guetoização" de ciganos na Alemanha, para em seguida, com a eclosão da guerra, facilitar a deportação para a exploração de trabalho forçado e o extermínio na Europa ocupada.
Os ciganos se encaixavam em duas categorias: na de "a-sociais" e na de "seres racial e biologicamente inferiores". Era justamente essa segunda categoria à qual os judeus pertenciam. Os judeus e ciganos sofreram uma política sistemática de extermínio em massa, denominada pelos nazistas de "solução final da questão judaica" e "solução final da questão cigana", preconizada e posta em ação somente a partir de 1941, na qual o "extermínio pelo trabalho" se incluía. Nesse sentido, pode-se compreender a afirmação de Yehuda Bauer, de que, "apesar das diferentes razões históricas, os ciganos dividiram de variadas formas com os judeus a duvidosa honra de serem a quintessência dos estrangeiros em uma Europa cristã predominantemente sedentária".
O motivo central para o extermínio dos ciganos foi racial. Eles não condiziam com o ideal da "raça ariana", mas foram discriminados e excluídos da sociedade porque muitos não eram sedentários e não se encaixavam na sociedade preconizada por Hitler - daí serem chamados de "a-sociais".
Trabalhos forçados
No verão de 1938, foi elaborado o Decreto dos A-Sociais de Heydrich (Asozialen-Erlass Heydrichs), que preconizava o trabalho forçado de todos os ciganos, cuja força de trabalho estava inserida no Plano Econômico Quadrienal. Centenas de ciganos e pessoas consideradas "vagabundos" foram deportados a partir de 21 de abril de 1938 para o campo de concentração de Buchenwald, durante a ação contra "vagabundos do Reich", reforçada pelas prisões em massa de julho de 1938 e as deportações de judeus e ciganos, conduzidas por Adolf Eichmann, para campos de concentração da Alemanha e Áustria depois da Noite dos Cristais Quebrados, de 9 de novembro do mesmo ano. Durante as deportações, a Gestapo recolhia as posses roubadas das vítimas.
O caminho para o extermínio de milhares de ciganos nas câmaras de gás começou com o Decreto da Luta contra a Praga Cigana, de 8 de dezembro de 1938, ou Decreto Fundamental, no qual consta: "Por motivos raciais, a regulamentação da questão cigana deve começar. A identificação de pertencer aos ciganos vai de encontro com a RSHA (Reichsicherheitshauptamt, o serviço central de segurança do Reich), com base no ‘parecer racial' de Robert Ritter". Segundo o historiador Romani Rose, a "solução definitiva" ("endgültige Lösung") da assim denominada "questão cigana" foi anunciada nesse decreto de Himmler, cuja conseqüência direta foi "a deportação, no início de 1943, de ciganos de 11 países europeus para o campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau".
As medidas do Decreto Fundamental foram reforçadas pelo "decreto de fixação de residência", promulgado a 7 de outubro de 1939 por Himmler, no qual os ciganos estavam proibidos de se mudar dentro das fronteiras do Reich e a partir do qual passaram a ser massivamente utilizados como mão-de-obra forçada. Com a invasão da Polônia e o início da guerra, Reinhard Heydrich resumiu a questão judaica da seguinte maneira: "1) judeus o quanto antes para as cidades; 2) judeus fora do Reich para a Polônia; 3) os 30 mil ciganos restantes também para a Polônia". A estimativa de Heydrich em relação aos ciganos era exagerada, mas nesse documento é claro o objetivo de dar aos ciganos o mesmo destino. Além disso, é clara a relação direta entre exploração da mão-de-obra de judeus e ciganos antes de seu extermínio ("extermínio pelo trabalho") e o extermínio direto, passando pelo processo de "guetoização" e extermínio nas câmaras de gás.
Como trabalhadores forçados, os ciganos foram vítimas do programa de extermínio de firmas da SS e de empresas privadas. Dentre as firmas da SS destacamos a Deutsche Erd und Teinwerke GmbH (Dest, Escavadeira e Pedreira Alemã), instalada nos campos de concentração de Buchenwald, Mauthausen, Flossenburg, Gross-Rosen e Natzweiler com o objetivo de explorar a mão-de-obra de prisioneiros. Segundo Romani Rose e Walter Weiss, os ciganos também exerceram trabalhos forçados em grandes empresas, como a Siemens, Daimler-Benz, BMW, IG Farben, AEG, Heinkel, Messerschmitt e Steyer-Daimler-Puch, além de empresas menores de produção bélica e na empresa de construção atualmente conhecida como Phillip Holzmann.
As condições de trabalho eram igualmente desumanas tanto nos campos de concentração quanto nas empresas privadas alemãs da produção bélica. Em média, os ciganos trabalhavam exaustivamente de 12 a 15 horas por dia, sendo subalimentados, o que conduzia em poucas semanas à subnutrição, doenças, enfraquecimento e, por conseguinte, à morte. Além disso, durante o trabalho, a SS maltratava os prisioneiros física e psiquicamente, xingando-os, humilhando-os, batendo, enforcando ou fuzilando. Por isso, os sobreviventes sofreram graves danos à saúde.
Extermínio
Até o processo de deportação para o campo de extermínio de Auschwitz, houve um processo sistemático de perseguição, deportação e assassinatos dos ciganos. Quase dois meses depois da eclosão da Segunda Guerra Mundial, ocorreu a primeira deportação de ciganos para a Polônia ocupada, em 20 de outubro de 1939, à qual se seguiram outras. Outro decreto de Himmler, visando à seleção de ciganos para a deportação, foi promulgado em 7 de agosto de 1941, ao que se sucederam os primeiros fuzilamentos de ciganos na União Soviética ocupada e o confinamento em guetos (como Lódz, Radom e Varsóvia), muitos dos quais seguidos de transporte para os campos de extermínio. Os guetos eram locais de confinamento de judeus, para onde os ciganos também foram levados. Neles, a situação era de quase completa carência material, desnutrição e doenças.
O auge dessa política contra os ciganos ocorreu com o Decreto Auschwitz, promulgado por Himmler em 16 de dezembro de 1942, que ordenava que todos os ciganos restantes do território do Reich, isto é, cerca de 10 mil almas, deveriam ser deportados para o campo de extermínio de Auschwitz, um complexo de campo de concentração (Auschwitz als Stammlager) que incluía o campo de extermínio Auschwitz-Birkenau e o campo de trabalhos forçados de Auschwitz-Monowitz, o maior centro de exploração de prisioneiros. Em Auschwitz-Birkenau foi utilizado o gás mortal Zyklon B nas câmaras de gás, para o qual as firmas IG-Farben, Degussa e Degesch (Deutsche Geselschaft für Schädlingsbekämpfung) tinham o monopólio de produção.
A partir de 26 de fevereiro de 1943 iniciou-se a deportação de ciganos para Auschwitz, que continuou no ano seguinte. Em 16 de maio, muitos dos 6 mil ciganos que sobreviveram em Auschwitz às condições subhumanas do "extermínio pelo trabalho" e das experiências pseudocientíficas se revoltaram diante da tentativa do comandante de Auschwitz-Birkenau de levá-los para as câmaras de gás. Em 2 de agosto, 3 mil deles foram deportados para outros campos e os demais 3 mil, assassinados.


Auschwitz foi a maior máquina de extermínio de todos os tempos, onde 900 mil judeus, 70 mil poloneses não-judeus, 21 mil ciganos e 13 mil prisioneiros de guerra soviéticos foram assassinados. Ali, entre 1941 e 1945, pelo menos 30 mil prisioneiros, sobretudo judeus, ciganos e eslavos, morreram em decorrência do programa do "extermínio pelo trabalho". Segundo o historiador e sobrevivente de Auschwitz Hermann Langbein, "Auschwitz é o símbolo do assassinato de seres humanos nas câmaras de gás, somente por terem nascidos ciganos ou judeus".
As estimativas do total de vítimas ciganas do regime nazista, assassinadas nas câmaras de gás, em fuzilamentos em massa e nos guetos, giram em torno de 200 mil a 500 mil. O reconhecimento da colaboração no extermínio por parte de algumas firmas ocorreu ao longo do pós-guerra, em especial depois da reunificação da Alemanha, em 1989/1990. A empresa Daimler-Benz, por exemplo, erigiu um monumento em memória dos cerca de 40 mil trabalhadores forçados que foram explorados no período nazista por essa firma, que também pagou indenização para alguns sobreviventes da Holanda e da Polônia, no final da década de 80.
Mas ainda há muito a ser reconhecido, pesquisado, debatido e compreendido a respeito da simbiose entre o capitalismo, a ciência, o nazismo e a máquina de morte em escala industrial nesse capítulo infame da história. Nesse sentido, buscamos dar uma pequena contribuição, numa época em que revisionistas - e até mesmo estadistas - tentam negar o Holocausto e em que a intolerância e a discriminação ainda são um dos combustíveis, junto com interesses econômicos espúrios, de muitas das atuais guerras.
Discriminação ainda continua
Atualmente vivem cerca de 60 mil ciganos na Alemanha, dos quais 40 mil são ciganos sinti e 20 mil são ciganos rom. Os ciganos são até hoje discriminados, embora sejam cidadãos alemães e trabalhem como comerciantes, operários, artesãos, artistas e funcionários públicos, dentre outras profissões. Antes do genocídio nazista, os ciganos também trabalhavam como funcionários públicos, notadamente nos correios e nos meios de transporte, e muitos tinham residência fixa, em especial os ciganos sinti, há seis séculos vivendo na Alemanha. Portanto, ao contrário do que dizia a propaganda nazista, tanto ciganos como judeus viviam integrados na sociedade alemã como cidadãos, embora houvesse discriminação.
A integração desses ciganos e judeus à sociedade alemã pode ser notada, por exemplo, no fato de muitos deles terem servido como soldados do exército na Primeira Guerra Mundial e, também, em menor medida, na Segunda Guerra Mundial, até que os decretos do Ministério de Guerra do Reich proibissem judeus e ciganos de pertencer ao exército. No entanto, os mitos e preconceitos em torno dos ciganos perduraram ao longo dos séculos, muitos até os tempos atuais.
Descrição
O extermínio de 200 mil a 500 mil ciganos durante o regime de Hitler na Alemanha - assassinados nas câmaras de gás, em fuzilamentos em massa e nos guetos - fez parte da "Solução Final da Questão Cigana", tema ainda pouco conhecido pelo historiografia brasileiro.


Romanis
(genericamente mas incorretamente chamados de Ciganos) eram considerados pelos nazistas párias da sociedade. Durante a República de Weimar – o denominado governo alemão de 1918 a 1933 – leis anti-romani foram amplamente disseminadas. Estas leis exigiam que se reportassem às autoridades, proibiam a livre locomoção, e os enviaram para campos de trabalho forçado. Quando os nazistas assumiram o poder, estas leis permaneceram em vigor e foram aprofundadas. Sob as diretrizes da lei de esterilização de julho de 1933, muitos romanis foram esterilizados contra a vontade.


Em novembro de 1944, a “Lei contra Criminosos Perigosos Habituais” (Law Against Dangerous Habitual Criminals) foi aprovada. Cumprindo a lei, a polícia começou a prender romanis juntamente com outros considerados “associais”. Mendigos, errantes, os sem-teto, e alcoólatras foram presos e mandados para campos de concentração.


As leis raciais de Nuremberg, aprovadas em 15 de setembro de 1935, não mencionavam especificamente romanis, mas eles foram considerados, ao lado de judeus e “negros”, como parte de minorias “racialmente distintas” de “sangue estrangeiro”. Desta forma, foram-lhes proibidos casamentos com “Arianos”. Eles também foram destituídos de seus direitos civis.


No verão de 1938, um grande contingente romani proveniente da Alemanha e da Áustria foi detido e enviado para campos de concentração. Utilizavam como sinal de identificação triângulos pretos (destinados aos “associais”) e eventualmente a letra “Z”.


Da mesma forma que ocorrera com os judeus, o início da guerra em setembro de 1939 conflito encrudeceu a política nazista em relação grupo romani. Sua “recolonização para o Leste” e seu extermínio em massa encontraram seu paralelo na deportação e assassinato sistemático de judeus. É difícil estimar quantos romanis foram assassinados. A estimativa varia em torno de 220.000 a 500.000.


FONTES


Dr. William L. Shulman, A State of Terror: Germany 1933-1939. Bayside, New York: Holocaust Resource Center and Archives.
Por Rodrigo
http://www.rumoatolerancia.fflch.usp.br/node/1302
http://pt.wikipedia.org/wiki/Holocausto

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